domingo, 22 de maio de 2011

EUGENIA

Eugenia
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Nota: Para outros significados, veja Eugenia (desambiguação).
"Eugenia é a auto-direção da evolução humana": Logo da Segunda Conferência Internacional de Eugenia, realizada em 1921, retratando-o como uma árvore que reúne uma variedade de diferentes campos.
Eugenia - é um termo cunhado em 1883 por Francis Galton (1822-1911), significando "bem nascido".[1] Galton definiu eugenia como o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente.[2] Em outras palavras, melhoramento genético. O tema é bastante controverso, particularmente após o surgimento da eugenia nazista, que veio a ser parte fundamental da ideologia de pureza racial, a qual culminou no Holocausto. Mesmo com a cada vez maior utilização de técnicas de melhoramento genético usadas atualmente em plantas e animais, ainda existem questionamentos éticos quanto a seu uso com seres humanos, chegando até o ponto de alguns cientistas declararem que é de fato impossível mudar a natureza humana.
Desde seu surgimento até os dias atuais, diversos filósofos e sociólogos declaram que existem diversos problemas éticos sérios na eugenia, como a discriminação de pessoas por categorias, pois ela acaba por rotular as pessoas como aptas ou não-aptas para a reprodução. Do ponto de vista do debate científico, a eugenia foi derrotada pelo argumento da genética mendeliana.
 História
Sir Francis Galton iniciou o desenvolvimento de ideias sobre eugenia a partir de estatísticas sociais.
Já na Grécia antiga, Platão descrevia, em República, a sociedade humana se aperfeiçoando por processos seletivos (sem falar que em Esparta já se praticava a eugenia frente aos recém-nascidos, já que não existiam pré-natais, abortivos eficientes, eutanásia e afins), já conhecidos na época. Modernamente, uma das primeiras descrições sobre a eugenia foram feitas pelo cientista inglês Francis Galton.
Galton foi influenciado pela obra de seu primo Charles Darwin, A Origem das Espécies, onde aparece o conceito de seleção natural. Baseado nele Galton propôs a seleção artificial para o aprimoramento da população humana segundo os critérios considerados melhores à época.
Foi também Galton quem lançou as bases da genética humana e cunhou o termo eugenia, para designar a melhoria de uma determinada espécie através da seleção artificial, em sua obra Inquiries into Human Faculty and Its Development (Pesquisas sobre as Faculdades Humanas e seu Desenvolvimento), de 1883. Esta obra foi largamente elogiada em matéria da revista americana "Nature", em 1870.
Ao escrever seu livro Hereditary Genius (O gênio herdado) em 1869, Galton observou, compilou dados e sistematizou a inteligência em vários membros de várias famílias inglesas durante sucessivas gerações. Sua conclusão foi de que a inteligência acima da média nos indivíduos de uma determinada família se transmite hereditariamente. Bulmer argumenta que Galton estava tão tendencioso a explicação pela hereditariedade que nem sequer tomou o cuidado de analisar os meios neuro-sociais de forma imparcial, isenta e proporcional.[3] Por acreditar que a condição inata, e não o ambiente, determinava a inteligência, Galton propôs uma eugenia positiva através de casamentos seletivos.
Na época, a população inglesa crescia nas classes pobres e diminuía nas classes mais ricas e cultas, e se temia uma degeneração biológica. Portanto, a eugenia logo se transformou num movimento que angariou inúmeros adeptos entre a esmagadora maioria dos cientistas e principalmente entre a população em geral na sua época áurea (1870-1933). Trouxe, porém, em função do simplismo e arcaísmo de análise, o seu próprio declínio. No entanto, suas idéias sobrevivem, pois seus métodos estatísticos foram incorporados na teoria Darwiniana nos anos 30 e sintetizados com a genética Mendeliana.[3]
Contrariamente a uma crença popular, a eugenia é inglesa (não alemã) em invenção e estadunidense (não alemã), em pioneirismo legislativo. Outra crença é que a eugenia fosse uma doutrina aplicada ou propagada pela direita política.
Brasil
Quadro "Redenção de Can"[4] (1895, avó negra, filha mulata, genro e neto brancos). Para o governo da época, a cada geração o brasileiro ficaria mais branco. Quadro de Modesto Brocos y Gomes.
O Brasil foi o primeiro país da América do Sul a ter um movimento eugênico organizado. A Sociedade Eugênica de São Paulo foi criada em 1918. O movimento eugênico no Brasil foi bastante heterogêneo, trabalhando com a saúde pública e com a saúde psiquiátrica. Uma parte, que pode ser chamada de ingênua ou menos radical, do movimento eugenista se dedicou a áreas como saneamento e higiene, sendo esses esforços sempre aplicados em relação ao movimento racial.
Em 1931 foi criado o Comitê Central de Eugenismo, presidido por Renato Kehl e Belisário Penna. Propunha o fim da imigração de não-brancos, e "prestigiar e auxiliar as iniciativas científicas ou humanitárias de caráter eugenista que sejam dignas de consideração". Medidas que visavam impedir a miscigenação. Higienismo e eugenismo se confundem, no Brasil.[5]
A Revista Brasileira de Enfermagem passa por três fases em relação à eugenia; conceituação (1931-1951), conflitos éticos, legais e morais (1954-1976), e eugenia como tema do começo do século XX (1993-2002). Expressa três categorias de conceitos:
1.     luta pelo aperfeiçoamento eugênico do povo brasileiro
1.     responsabilidade da enfermeira em relação ao tema
1.     não há solução para os males sociais fora das leis da biologia.
Alemanha nazista
Ver artigos principais: Nazismo e raça e Aktion T4.
As idéias alemãs sobre eugenia vieram do Ensaio sobre as desigualdades das raças humanas, do Conde de Gobineau, publicado em 1854. Em 1935 as Leis de Nuremberg proibiram o casamento ou contato sexual de alemães com judeus, pessoas com problemas mentais, doenças contagiosas ou hereditárias, mas em 1933 já era lei a esterilização de pessoas com problemas hereditários e a castração de delinqüentes sexuais, ou de pessoas que a cultura nazista assim classificasse, como era o caso dos homossexuais.
Segundo alguns historiadores a Alemanha Nazista levou as políticas eugênicas ao extremo, porém, segundo outras fontes, acredita-se que o que ocorreu com os judeus durante o Terceiro Reich foi genocídio, e não foi a aplicação de idéias eugênicas que causou o holocausto e sim o ódio racial entre dois grupos étnicos distintos.
O único consenso é que a eugenia foi praticada com alemães que possuiam deficiências físicas ou mentais, através do extermínio, e da esterilização. Entretanto, existem distinções entre as formas de eugenia, como a eugenia positiva (que incentiva pessoas saudáveis a terem mais filhos) e a eugenia negativa (que impede que pessoas com certas limitações se reproduzam), sendo a positiva praticada também no Terceiro Reich, com a criação de centros de reprodução humana.
[editar] Estados Unidos
Nos EUA surgiu a eugenia negativa - aliança entre as teorias eugênicas européias e o racismo já existente naquele país -, que consiste na eliminação das futuras gerações de incapazes (doentes, de raças indesejadas e empobrecidos) através da proibição de casamento, esterilização coercitiva e eutanásia. Como teoria, vicejou no final do século XIX, quando os imigrantes não-germânicos eram mal vistos pelos descendentes dos primeiros colonizadores.
O patrocínio privado à eugenia começou nos EUA, nos anos iniciais do século XX. Financiadores tanto do racismo nos EUA, eram os milionários americanos John D. Rockefeller, Harriman, Carnegie e tantos outros. Ao capital uniram-se cientistas de Harvard, Yale, Princeton e Stanford. De uma forma rapida e eficaz podemos dizer que Eugenia é a Ciência que se ocupa com o estudo e cultivo de condições que tendem a melhorar as qualidades físicas e morais de gerações futuras.
Charles Davenport dirigia o laboratório de biologia do Brooklin Institute of Arts and Science, em Cold Spring Harbor, em 1903, e lá ao Instituto Carnegie instalou uma estação experimental de eugenia. Apoiado por criadores de animais e especialistas em sementes que participavam do movimento eugenista, criou em 1909 o Eugenics Record Office, registro de antecedentes genéticos de americanos com que pretendia pressionar o governo a criar leis propícias à prevenção do nascimento de indesejáveis. O estado de Indiana foi o primeiro a legalizar a esterilização coercitiva, seguido por outros 27 estados. Foram esterilizadas por determinação legal, nos EUA, cerca de 60 000 pessoas, metade delas na Califórnia.
O escritório de imigração de Nova York era mantido por doações da companhia Harriman de trens, e submetia imigrantes judeus, italianos e outros à deportação, confinamento ou esterilização.
Em 1912 foi criado o Comitê Internacional de Eugenia, dominado pelos EUA, e o centro em Cold Spring Harbor era base de treinamento de eugenistas do mundo todo.
Século XXI
Começando na década de 1980, a história e conceito de eugenismo foram amplamente discutidos como avançados conhecimentos sobre genética. Empreendimentos, como o Projeto Genoma Humano, fez com que a alteração efetiva da espécie humana parecesse possível novamente (como ocorreu com teoria da evolução de Darwin em 1860, juntamente com a redescoberta de leis de Mendel no início do século XX). A diferença no início do século XXI foi a atitude cautelosa da sociedade em relação ao eugenismo, que tinha se tornado um lema a ser temido e não apoiado, principalmente depois do fim da Segunda Guerra Mundial.
Companhias de seguro, planos de saúde e centros de imigração estão usando descobertas científicas para detectar características genéticas. Diagnóstico pré-natal de possíveis defeitos permite a opção pelo aborto. Estima-se que entre 91% e 93% das crianças diagnosticadas com Síndrome de Down sejam abortadas [6] Estes temas, bem como a AIDS, têm sido discutidos com base em pressupostos eugênicos, sem que se explicite essa referência.
O filme estadunidense "Gattaca", de 1997, descreve um futuro onde a maioria das crianças são selecionadas a partir de embriões fertilizados in vitro, e só os perfeitos são implantados no útero. As pessoas que não são geneticamente planejadas ("in-válidas") são discriminadas pela sociedade.
Ideias e sugestões
Pesquisadores científicos, como os psicólogos Richard Lynn e Raymond Cattell e o cientista Gregory Stock apoiam abertamente políticas eugênicas utilizando a tecnologia moderna, mas eles representam uma opinião minoritária nos atuais círculos científicos e culturais.[7] Uma tentativa implementação de uma forma de eugenismo era um "banco de esperma de gênios" (1980–99) criado por Robert Klark Graham, partir do qual quase 230 crianças foram concebidas (os doadores conhecidos eram ganhadores do Prêmio Nobel como William Shockley e J.D. Watson). Nos Estados Unidos e Europa, no entanto, estas tentativas frequentemente têm sido criticadas como formas racistas de eugenismo, como as que ocorriam na década de 1930. Devido à sua associação com esterilização obrigatória e os ideais raciais do partido nazista, a palavra "eugenismo" é raramente usada pelos defensores desses programas.
Eugenicistas argumentam que a imigração proveniente de países com baixo Quociente de inteligência (QI) é indesejável. De acordo com Raymond Cattell "quando um país abre suas portas à imigração de diversos países, é como um agricultor que adquire suas sementes de diferentes fontes, com sacos com conteúdos de diferentes qualidades."[8]
Disgenia
Ver artigo principal: Disgenia
A disgenia é a degeneração genética nas populações humanas modernas, ela surge com a medicina moderna, quando diversas doenças sérias de caráter genético começaram a ser tratadas, e as vitímas de tais doenças começaram a ter uma expectativa de vida maior, possibilitando a transmissão de certas doenças para as futuras gerações, o que tem contribuído no acúmulo de doenças a cada geração. Tal fato tem sido amplamente discutido entre os eugenistas modernos, e recentemente foi publicado um livro do cientista inglês Richard Lynn tratando do assunto.
Críticas
 Ética
Observando-se do ponto de vista ético, é impossível determinar o ponto exato onde a interferência do Estado pode ou não impedir ou incentivar a reprodução de cidadãos por quaisquer critérios. A comunidade científica sabe que a hereditariedade tem papel importante, porém nunca exclusivo sobre a inteligência de um determinado indivíduo, ou grupos de indivíduos, pois o fator inteligência não é determinado apenas por uma seqüência genética, mas também é influenciado pelo ambiente do indivíduo. Logicamente não podemos afirmar que uma pessoa é menos inteligente do que outra apenas por ela não saber ler. Por outro lado, estudos mais modernos têm mostrado que existem diferentes inteligências e os testes de QI têm valor no mínimo limitado, mas que mostra muito bem a capacidade lógica de um indivíduo.
Apesar de o assunto eugenia sempre por a tona o aspecto cruel da manipulação genética, seria esta talvez uma forma de eliminarmos de vez doenças a muito conhecidas e sem cura por serem doenças genéticas. Doenças bacterianas podem ser tratadas com antibióticos, por exemplo, mas uma doença genética não tem cura, e a única solução para essa doença seria necessariamente a eliminação de seus genes causadores. São conhecidos mecanismos fisiológicos de transmissão e expressão de caracteres hereditários. Também são conhecidos métodos que possibilitam inibir o nascimento de indivíduos com defeitos físicos ou enfermidades. De acordo com a seleção natural, indivíduos com doenças seriam naturalmente incapazes de transmitir seu código genético, no entanto isso não ocorre pois qualquer um hoje pode se reproduzir mesmo sendo incapaz e passar sua carga genética para descendentes. Especula-se que uma possível solução para doenças genéticas seria necessariamente um programa de eugenia.
Em vários países o movimento eugênico inspirou a promulgação de leis que determinavam a esterilização compulsória de portadores de certas doenças hereditárias graves. Como lei, a eugenia nasceu nos Estados Unidos, em 1907.
Nas artes
Cinema
O filme Gattaca (EUA, 1997) expôs as preocupações sobre as tecnologias reprodutivas que facilitam a eugenia e as possíveis consequências de tais desenvolvimentos tecnológicos para a sociedade.
Literatura
A Sétima Porta (2007), um romance de Richard Zimler, explora a esterilização e a matança de pessoas deficientes na Alemanha Nazi.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Supremo reconhece união estável de homossexuais

05/05/2011 20h30 - Atualizado em 05/05/2011 21h25

 Casais gays podem ter assegurados direitos, como pensão e herança.
Em decisão unânime, ministros do STF defenderam os direitos de gays.

Débora Santos Do G1, em Brasília
Os ministros Ayres Britto, relator das ações sobre união homossexual, e Ricardo Lewandowski durante julgamento no Supremo (Foto: Dida Sampaio / Agência Estado)Os ministros Ayres Britto (dir), relator das ações
sobre união homossexual, e Ricardo Lewandowski
durante julgamento no Supremo (Foto: Dida
Sampaio / Agência Estado)
O Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu, por unanimidade, nesta quinta-feira (5) a união estável entre casais do mesmo sexo como entidade familiar. Na prática, as regras que valem para relações estáveis entre homens e mulheres serão aplicadas aos casais gays. Com a mudança, o Supremo cria um precedente que pode ser seguido pelas outras instâncias da Justiça e pela administração pública.
O presidente do Supremo, ministro Cezar Peluso, concluiu a votação pedindo ao Congresso Nacional que regulamente as consequência da decisão do STF por meio de uma lei. “O Poder Legislativo, a partir de hoje, tem que se expor e regulamentar as situações em que a aplicação da decisão da Corte seja justificada. Há, portanto, uma convocação que a decisão da Corte implica em relação ao Poder Legislativo para que assuma essa tarefa para a qual parece que até agora não se sentiu muito propensa a exercer”, afirmou Peluso.
De acordo com o Censo Demográfico 2010, o país tem mais de 60 mil casais homossexuais, que podem ter assegurados direitos como herança, comunhão parcial de bens, pensão alimentícia e previdenciária, licença médica, inclusão do companheiro como dependente em planos de saúde, entre outros benefícios.
Em mais de dez horas de sessão, os ministros se revezaram na defesa do direito dos homossexuais à igualdade no tratamento dado pelo estado aos seus relacionamentos afetivos. O julgamento foi iniciado nesta quarta-feira (4) para analisar duas ações sobre o tema propostas pela Procuradoria-Geral da República e pelo governo do estado do Rio de Janeiro.
Em seu voto, o ministro Ayres Britto, relator do caso, foi além dos pedidos feitos nas ações que pretendiam reconhecer a união estável homoafetiva. Baseada nesse voto, a decisão do Supremo sobre o reconhecimento da relação entre pessoas do mesmo sexo pode viabilizar inclusive o casamento civil entre gays, que é direito garantido a casais em união estável.
A diferença é que a união estável acontece sem formalidades, de forma natural, a partir da convivência do casal, e o casamento civil é um contrato jurídico formal estabelecido entre suas pessoas.
A lei, que estabelece normas para as uniões estáveis entre homens e mulheres, destaca entre os direitos e deveres do casal o respeito e a consideração mútuos, além da assistência moral e material recíproca.
Efeitos da decisãoA extensão dos efeitos da união estável aos casais gays, no entanto, não foi delimitada pelo tribunal. Durante o julgamento, o ministro Ricardo Lewandowski foi o único a fazer uma ressalva, ao afirmar que os direitos da união estável entre homem e mulher não devem ser os mesmos destinados aos homoafetivos. Um exemplo é o casamento civil.
“Entendo que uniões de pessoas do mesmo sexo, que se projetam no tempo e ostentam a marca da publicidade, devem ser reconhecidas pelo direito, pois dos fatos nasce o direito. Creio que se está diante de outra unidade familiar distinta das que caracterizam uniões estáveis heterossexuais”, disse Lewandowski.
“Não temos a capacidade de prever todas as relações concretas que demandam a aplicabilidade da nossa decisão. Vamos deixar isso para o caso a caso, nas instâncias comuns. A nossa decisão vale por si, sem precisar de legislação ou de adendos. Mas isso não é um fechar de portas para o Poder Legislativo, que é livre para dispor sobre tudo isso”, afirmou o relator do caso, ministro Ayres Britto.
"Esse julgamento marcará a vida deste país e imprimirá novos rumos à causa da homossexualidade. O julgamento de hoje representa um marco histórico na caminhada da comunidade homossexual. Eu diria um ponto de partida para outras conquistas", afirmou o ministro Celso de Mello.
Ministros do Supremo durante sessão sobre união entre homossexuais (Foto: Carlos Alberto / Imprensa STF)Ministros do Supremo durante sessão sobre união
entre homossexuais (Foto: Carlos Alberto /
Imprensa STF)
Julgamento
No primeiro dia de sessão, nove advogados de entidades participaram do julgamento. Sete delas defenderam o reconhecimento da união estável entre gays e outras duas argumentaram contra a legitimação.
A sessão foi retomada, nesta quinta, com o voto do ministro Luiz Fux. Para ele, não há razões que permitam impedir a união entre pessoas do mesmo sexo. Ele argumentou que a união estável foi criada para reconhecer “famílias espontâneas”, independente da necessidade de aprovação por um juiz ou padre.
“Onde há sociedade há o direito. Se a sociedade evolui, o direito evolui. Os homoafetivos vieram aqui pleitear uma equiparação, que fossem reconhecidos à luz da comunhão que tem e acima de tudo porque querem erigir um projeto de vida. A Suprema Corte concederá aos homoafetivos mais que um projeto de vida, um projeto de felicidade”, afirmou Fux.
“Aqueles que fazem a opção pela união homoafetiva não podem ser desigualados da maioria. As escolhas pessoais livres e legítimas são plurais na sociedade e assim terão de ser entendidas como válidas. (...) O direito existe para a vida não é a vida que existe para o direito. Contra todas as formas de preconceitos há a Constituição Federal”, afirmou a ministra Cármen Lúcia.
Preconceito
O repúdio ao preconceito e os argumentos de direito à igualdade, do princípio da dignidade humana e da garantia de liberdade fizeram parte das falas de todos os ministros do STF.
“O reconhecimento hoje pelo tribunal desses direitos responde a grupo de pessoas que durante longo tempo foram humilhadas, cujos direitos foram ignorados, cuja dignidade foi ofendida, cuja identidade foi denegada e cuja liberdade foi oprimida. As sociedades se aperfeiçoam através de inúmeros mecanismos e um deles é a atuação do Poder Judiciário”, disse a ministra Ellen Gracie.
“Estamos aqui diante de uma situação de descompasso em que o Direito não foi capaz de acompanhar as profundas mudanças sociais. Essas uniões sempre existiram e sempre existirão. O que muda é a forma como as sociedades as enxergam e vão enxergar em cada parte do mundo. Houve uma significativa mudança de paradigmas nas últimas duas décadas”, ponderou Joaquim Barbosa.
O ministro Gilmar Mendes ponderou, no entanto, que não caberia, neste momento, delimitar os direitos que seriam consequências de reconhecer a união estável entre pessoas do mesmo sexo. “As escolhas aqui são de fato dramáticas, difíceis. Me limito a reconhecer a existência dessa união, sem me pronunciar sobre outros desdobramentos”, afirmou.
Para Mendes, não reconhecer o direitos dos casais homossexuais estimula a discriminação. “O limbo jurídico inequivocamente contribui para que haja um quadro de maior discriminação, talvez contribua até mesmo para as práticas violentas de que temos noticia. É dever do estado de proteção e é dever da Corte Constitucional dar essa proteção se, de alguma forma, ela não foi engendrada ou concedida pelo órgão competente”, ponderou.
Duas ações
O plenário do STF concedeu, nesta quinta, pedidos feitos em duas ações propostas pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e pelo governo do estado do Rio de Janeiro.
A primeira, de caráter mais amplo, pediu o reconhecimento dos direitos civis de pessoas do mesmo sexo. Na segunda, o governo do Rio queria que o regime jurídico das uniões estáveis fosse aplicado aos casais homossexuais, para que servidores do governo estadual tivessem assegurados benefícios, como previdência e auxílio saúde.
O ministro Dias Toffoli não participou do julgamento das ações. Ele se declarou impedido de votar porque, quando era advogado-geral da União, se manifestou publicamente sobre o tema.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Filosofia com crianças – Uma matéria perigosa?

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Isabel F. Furini
O ingresso da filosofia no currículo do ensino fundamental coloca os educadores diante de um novo desafio: O que ensinar nas aulas de filosofia?   Como tornar as aulas instrutivas e agradáveis? Que tópicos abordar? Estas e outras perguntas inquietam os educadores. Alguns ficam preocupados ante a possibilidade de que as crianças considerem os assuntos cansativos, alheios às suas necessidades. Os professores querem embarcar com sua turma na procura de novas descobertas, motivar os alunos. Fazê-las não só entender os princípios filosóficos, mas também participar das descobertas. Estimulá-las a gostar da reflexão.
As crianças podem filosofar?
Ao falar de filosofia para crianças ou em filosofia com crianças, muitas dúvidas surgem. O assunto é novo e empolgante. Alguns perguntam: As crianças estão capacitadas para aprender filosofia em sala de aula? Também poderíamos questionar o fato de as crianças estarem capacitadas para aprender disciplinas como matemática, português e ciência. E mais ainda, computação!
Se as crianças estão preparadas para navegar pela Internet, então, como não poderão iniciar-se na filosofia? Só é preciso cuidar da abordagem. Deve ser lúdica. Vejamos: uma criança não começa a estudar trigonometria, ela aprende os princípios da matemática, ou seja, primeiro ela aprende a contar até dez, depois até cem, aprende a somar, a subtrair, a multiplicar e a dividir.  Mais para frente, será iniciada em cálculos complexos. O mesmo processo deve acontecer com o estudo da filosofia.
Não podemos subestimar as crianças! Elas nasceram na época da informática, da mídia, da globalização, um mundo diferente do nosso. Elas vão viver, crescer e trabalhar nesse novo mundo.
As crianças podem aproximar-se da filosofia, como dizia Aristóteles, pela admiração, pela curiosidade.  Os gregos se perguntavam: por que uma roseira tem folhas e flores em uma estação e fica sem folhas em outra estação?   Por que existe o som e o silêncio?  De onde veio este universo?
Já Aristóteles assinalava que o filósofo fica admirado por coisas simples, admirado ao contemplar o crescimento de uma planta, o nascimento de uma flor, as mudanças. Admiração é, então, o primeiro estágio da filosofia.
Pestalozzi, o famoso pedagogo suíço (1746 - 1827), afirmou que a verdadeira educação só é possível cara a cara e coração a coração.  É o educador quem pode estimular a capacidade de pensar, compreender e discernir dos alunos.
Filosofia para crianças ou com crianças?
Dizemos que o interesse pela filosofia para crianças ou pela filosofia com crianças está cada vez mais acentuado. Vejamos primeiro a diferença entre os dois conceitos. Alguns filósofos afirmam que filosofia para crianças tem uma conotação dogmática, de conhecimento que o professor dará ao aluno, enquanto a filosofia com crianças exprime um conceito mais moderno em que as crianças aprendem filosofando.
O filósofo francês Bergson afirmou numa palestra que podemos escutar falar horas e horas sobre a cidade de Paris ou ler sobre suas ruas, seus monumentos e sua gente e não teremos um conhecimento tão claro como se conseguíssemos caminhar durante meia hora pelas ruas de Paris. Assim é a filosofia. Não adianta procurar uma definição, temos que filosofar.
A frase “filosofia com crianças” está mais perto da opinião de Bergson de que filosofia se aprende filosofando. Assim, a metodologia das aulas não será baseada em datas e dados que podem ser decorados. O objetivo é criar a capacidade filosófica nos educandos. A capacidade de pensar, de questionar o mundo, de entender, de procurar novos caminhos.
Por exemplo, quando falamos da filosofia de vida de uma pessoa, queremos significar a soma de suas crenças, opiniões, suposições, ideias, pensamentos e ideais que orientam sua vida familiar, social ou profissional. Em outras palavras, as ações de qualquer ser humano estão orientadas pelas suas crenças, ideias e pensamentos, opiniões, suposições, sonhos, valores e ideais. Vejamos como caso prático o fato de aderir ao vegetarianismo.  Por quê? Algumas pessoas pensam que é errado matar animais para comer. Esta é uma postura filosófica. A ação é deixar de comer carne. Se o professor tiver em sala de aula um aluno cuja família é vegetariana, ainda que ele não seja vegetariano nem simpatize com a ideia, deve respeitar e ensinar a turma a respeitar a escolha deste aluno, nesse caso, o vegetarianismo.
Entramos já num tema muito questionador, muito debatido pelos filósofos que é a liberdade de escolha. O tema é assustador para a maioria.  Deixar os outros escolher suas vidas, é assustador, não é? Sartre dizia que o homem sente culpa porque não suporta o peso das próprias escolhas. E a liberdade de escolha é um assunto que pode ser abordado do ponto de vista da filosofia.
Uma aula de “sobrevivência”
O professor precisa deter-se e refletir calmamente sobre a formação dos alunos. Ele quer formar pessoas conformistas, obedientes ao sistema, incapazes de autodeterminação ou quer correr o risco de ensinar a pensar, a questionar e compreender o mundo?... Se quisermos um mundo melhor, evidentemente, precisamos de mudanças.
Um dos objetivos da filosofia é induzir os seres humanos, neste caso as crianças, a pensar por si mesmas. Talvez por isso os governos militares apagaram a Filosofia dos colégios... Nos anos 70, eu ainda morava em meu país e estudava filosofia em Buenos Aires, e como era época de governo militar, um dos professores nos deu uma “aula de sobrevivência”. Ele nos alertou: “Se por casualidade vocês chegarem a ser parados pela polícia, nunca digam que estudam filosofia. Filosofia é vista como matéria perigosa e filósofos são vistos como inúteis, improdutivos e rebeldes ao sistema. Se a polícia os pararem, digam que estudam psicologia. Psicólogos são considerados pessoas inúteis e improdutivos também, mas pacíficas”.
 “Lembrem – continuou – se vocês são parados pela polícia ou pelos militares e dizem que estudam filosofia, com esta resposta vocês já reduziram pela metade as chances de sobreviver. Só ficará meia vida para vocês... Então, sejam inteligentes, vocês são estudantes de psicologia. E agora, meus futuros psicólogos, continuaremos com Platão.
A filosofia é perigosa?
Karl Jaspers (1883-1969), em seu livro "Introdução ao pensamento filosófico", fala que algumas pessoas acham a filosofia demasiadamente complexa e proclamam que a filosofia está além de seu alcance. Continua: “A filosofia é perigosa. Se eu a compreendesse, teria de alterar minha vida. Adquiriria outro estado de espírito, veria as coisas com uma claridade insólita, teria de rever meus juízos. Melhor é não pensar filosoficamente”.
Filosofia em sala de aula significa que os alunos aprenderão junto à matemática, línguas e ciência, a arte de pensar.  E é muito difícil manipular um pensador. Fácil é manipular uma pessoa que segue a opinião dos outros. Para Jaspers, isto assusta e faz as pessoas pensarem que a filosofia é perigosa.
Sabemos que pode acontecer exatamente o contrário, pois existe uma filosofia pacifista, existe uma filosofia que ensina os homens a ser fraternos. Mas filosofia torna o homem consciente, e este poder de pensar e questionar o mundo é assustador para algumas pessoas.
Jaspers culpava também os políticos que se descuidavam da verdadeira educação do povo: “Muitos políticos veem facilitado seu nefasto trabalho pela ausência da filosofia. Massas e funcionários são mais fáceis de manipular quando não pensam, mas tão somente usam de uma inteligência de rebanho”.
Sem necessidade de criar pessoas revoltadas, a filosofia procura orientar para a formação do caráter dos indivíduos, nem conformistas, nem revoltados, simplesmente seres livres e capazes de exercer os direitos de escolha e autodeterminação.
A filosofia constitui uma fonte inesgotável de inspiração, nela podemos beber da sabedoria dos séculos.  A filosofia ajuda a desenvolver o pensamento profundo, criativo e autocorretivo. Estimula a reflexão. Dá bases para compreender o mundo e questioná-lo de maneira inteligente.
O novo milênio chegou. Vivemos na época da “globalização” da Internet, da busca da qualidade total! É hora de perguntarmos onde fica o ser humano neste contexto. O ser humano com suas possibilidades, suas limitações, sua grandeza, suas fraquezas, seus sonhos e sua capacidade de conhecer o mundo e de ser feliz.  É aí que o velho Sócrates volta às salas de aula e enfatiza: Conhece-te a ti mesmo! E Platão, desde sua Academia, ainda ensina a procurar o Bem, a Verdade e a Beleza.
Um mundo novo e um mundo melhor dependem, sobretudo, da educação das crianças. Diálogos, investigação, arte, contação de histórias, reflexão, teatro, poesia...  Os educadores podem utilizar várias técnicas para tornar as aulas interessantes e educativas. 
Se desejarmos mudanças que tornem as sociedades mais humanas, temos que aprender a questionar o mundo, os valores da nossa sociedade. A filosofia é um caminho para compreender e questionar.
Objetivos
A Filosofia no ensino fundamental tem por objetivo estimular as crianças a:
- Participar em grupos.
- Dialogar.
- Entender a responsabilidade de pertencer a um grupo.
- Aumentar a autoestima.


- Aprender a ser tolerante com as ideias dos outros.


- Desenvolver a paciência e a compreensão com aqueles menos favorecidos.
- Alargar a visão do mundo e a capacidade de questionar e de investigar o mundo.
- Refletir sobre valores morais e éticos.
- Despertar para a apreciação da arte e da beleza da vida.
Os educadores devem vivenciar com os alunos as atitudes de companheirismo e colaboração, hábito de leitura, diminuição de preconceitos, amor a si mesmo e aos outros, capacidade de diálogo e comunicação etc.
Lembremos que a filosofia educa o intelecto e a emoção. Não pode reduzir-se a fórmulas feitas. As aulas de filosofia não são somente para lembrar que Platão nasceu em Atenas em 427 a.C. e morreu em 347, nem que foi discípulo de Sócrates. Além destes dados que ajudam a entender como surge e se desenvolve a filosofia ocidental, os alunos precisam ser estimulados a observar, a questionar, a repensar o mundo. Filosofia é observar uma flor, observar uma pedra, observar uma estrela no céu e perguntar-se: Quem sou eu? De onde surgiu este universo? Filosofar é, então, uma atitude espontânea.

Isabel F. Furini é educadora e escritora. Publicou “Joana, a Coruja Filósofa” pela editora Sophos de Florianópolis, em 2005, e a coleção “Corujinha e os Filósofos” pela editora Bolsa Nacional do Livro, de Curitiba, em 2006.

O que é Filosofia para Crianças?

Paulo Ghiraldelli Jr
Universidade Estadual Paulista, Unesp, câmpus de Marília
O que é Filosofia para Crianças? Trata-se de ensinar a filosofia ou as filosofias para as crianças? Não creio que isso tenha sentido. Filosofia, séria, é um saber que envolve o domínio de técnicas que dependem de uma formação árdua, que não é possível de ser iniciada verdadeiramente na infância. Talvez somente no ensino médio, e ainda assim com muita dificuldade. Filosofia para crianças é, então, contar a história da filosofia, de um modo simplificado, para as crianças? Ora, para que? Para torná-las falsas eruditas? Não, isso me parece ridículo. Seria, então, o trabalho de se utilizar da filosofia para fazer as crianças pensarem? Isso é vazio: criança pode pensar, pensar bem, melhorar sua capacidade intelectual se puder aumentar seu universo vocabular e se tiver convivência com gente inteligente. A filosofia não garante isso. Não foi feita para tal. Bem, então, por fim, filosofia para crianças é o trabalho de instigar o nascimento do "pensamento filosófico" nas crianças através de contos preparados especialmente para tal? Muita gente crê nisso, mas eu duvido que isso não possa ser feito por qualquer outra disciplina, qualquer outra atividade nas mãos de qualquer outra pessoa, basta que tal pessoa seja um adulto inteligente, razoavelmente culto e que goste de crianças, dando-lhes boas coisas para ler.
Por todas essas razões, as várias faces da "filosofia para crianças", que em geral são apresentadas a mim, com raras exceções (Stella Accorinti é uma delas), me fizeram escrever em outro texto que filosofia não é coisa de criança. Nem a filosofia "hard", nem essas metamorfoses que querem se passar por "métodos de filosofia para criança".
Penso que se alguém quiser fazer algo que ele queira chamar de "filosofia para crianças", o melhor que pode fazer é ser ele próprio um bom professor de filosofia que saiba como o espírito da filosofia mudou. Se ele puder despertar na criança esses vários espíritos da filosofia, então, se quiser, pode até batizar isso de filosofia para crianças, embora pudesse também apenas dizer que se trata de uma educação com perspectivas amplas, para toda e qualquer criança que queremos ver como um adulto sadio intelectualmente e como uma pessoal moralmente correta.
E o que são esses diversos "espíritos da filosofia"? Ora, eu falei deles quando escrevi "O que é definir a filosofia" e "O que é a filosofia?"
O que a filosofia fazia, segundo Platão e Aristóteles? Ora, para eles, a filosofia aparece quando ela inaugura perguntas sobre o banal, causando então o estranhamento e a admiração daquilo que até então não parecia merecer nenhum questionamento. O fim do banal! ¾ se alguém quiser levar as crianças a abandonar a atitude que tudo banaliza, então, até podemos dizer, creio eu, que estamos levando para as crianças algum espírito da filosofia. As estrelas estão sempre lá. Nós não nos preocupamos com elas. São uma banalidade. Mas as crianças, muitas delas, se encantam com o céu na sua banalidade. Então, levar as crianças a explorar essa vontade de perguntar sobre o banal fazendo do banal não mais um elemento da banalidade pode ser, talvez, filosofia para crianças. Outras banalidades podem deixar de serem banais: quando eu era criança, era banal matar passarinho. Todavia, não para mim. Nunca atirei uma pedra em um passarinho. Eu tinha estilingue, é claro. Brinquei de "guerra de mamonas" na minha rua. Mas só usei o estilingue para atirar em latas e, depois, para acertar a bunda de algum adversário na "guerra de mamonas". Meu pai havia sido, na juventude, pescador e caçador. Sem ouvir qualquer discurso ecológico, uma vez mais velho, ele me ensinou que a morte de um animal não podia ser vista como algo banal. Talvez, quem sabe, ele tenha feito filosofia para crianças, no espírito da retirada da banalidade, como pensaram Aristóteles e Platão na idéia de que filosofia tem a ver com o estranhamento com o que até então era o comum.
Para os filósofos modernos, filosofia não tem tanto a ver com o estranhamento para com o mundo e para com nós mesmos. Os modernos acham, sim, que um problema filosófico importante é o surgimento, funcionamento e produção da verdade enquanto conhecimento verdadeiro. O espírito da filosofia moderna, com Descartes à frente, e Kant com a bandeira maior, revela-se na busca de uma explicação para o conhecimento e, então, para a instância na qual ele ocorre: o sujeito. Que sujeito? O indivíduo? Não ¾ é tolo quem confunde indivíduo com sujeito. O sujeito para a filosofia tem a ver com uma instância que forma a subjetividade, que é uma instância metafísica, mas que ao mesmo tempo deve ter uma ligação com o sensível. A filosofia moderna está preocupada com teoria do conhecimento, com epistemologia e, depois, com a própria montagem dessa instância chamada subjetividade.
Kant disse que antes de fazermos qualquer afirmação racional metafísica, deveríamos questionar a razão; fazer, portanto, a crítica. Ora, a crítica não é propriamente um conhecimento; ela é uma propedêutica ao conhecimento na medida em que ela é negativa; ela questiona, pela razão, o quanto a razão possui de legitimidade para dizer que pode produzir e/ou encontrar o conhecimento. Marx também usou a palavra crítica nesse sentido - quais as condições mais amplas, inclusive sociais, para se saber, pela razão, X ou Y.
Então, levar as crianças a perguntar pela legitimidade de qualquer atitude dita racional é aproveitar do espírito da filosofia para as crianças. Não é torná-las críticas, mas é fazê-las perseguidoras de justificativas, que se dizem racionais, que lhes são impostas. Se assim faz um professor de filosofia, ele talvez esteja fazendo um pouco de filosofia para crianças. Meu avô, por exemplo, que era um bom advogado, me ensinou a sempre ouvir e, depois, querer saber das razões, querer ver qual lado tem as melhores justificativas. E eu cresci assim, meio que não admitindo não colocar no tribunal da razão as frases ditas racionais que presidentes, chefes quaisquer, coordenadores, governadores e simples diretores de algumas entidades a que pertencemos dizem que são legítimas. Talvez meu avô tenha feito filosofia para crianças.
Os contemporâneos, Nietzsche, Dewey, James, e os vivos, Davidson, Rorty, Derrida, viram na filosofia não um trabalho crítico, mas um trabalho de redescrição e, para tal, cobraram da filosofia que ela ficasse atenta às novas metáforas pois, apesar delas não poderem ser entendidas no sentido de serem parafraseadas, elas são motivadoras de novos comportamentos, e, quem sabe, com sorte, comportamentos melhores.
O espírito da filosofia contemporânea e atual, então, se deslocou para a atenção à idéia de provocar os órgãos do bípedes sem penas que se ligam à esperança, deixando em segundo plano os órgãos dos bípedes sem penas mais voltados para o conhecimento. Nesse caso, fomento em meus filhos a esperança, quero que eles acreditem que podemos criar situações melhores a partir dos novos vocabulários que noto surgir. Quantas e quantas expressões que os jovens falam que não entendemos, mas que fazem os conservadores tremerem, não é verdade? Essas expressões, uma vez repetidas, talvez sejam a chave para criarmos comportamentos menos discriminatórios e, assim, colaborarmos com a idéia de que democracia não é o cumprimento da decisão da maioria, mas sim o cumprimento da decisão da maioria em favor de uma maior integração e respeito para com as minorias. Como meu pai e meu avô, talvez fazendo isso com meu filhos eu esteja fazendo filosofia para crianças.
Como vocês podem ver, tudo o que faço nada mais é que, sabendo um pouco de filosofia, por conta de ser professor de filosofia, construir algumas estratégias de vida ou algumas estratégias pedagógicas que meu pai e meu avô usaram e eu, em outro espírito, por conta de outra noção de filosofia, venho usando. Se quiserem chamar a isto de filosofia para crianças, não ficarei magoado, mas se chamarem a isto de uma relação educacional de um professor de filosofia com crianças, creio que ficaria mais contente. E isso é filosofia para crianças.
Paulo Ghiraldelli Jr – um dia após me tornar professor titular em filosofia da educação pela Universidade Estadual Paulista, julgado pela banca: Dermeval Saviani, Carlos Jamil Cury, Nadja Hermann, Nilo Odália e Tarso Mazzotti.
Jardim Acapulco, Marília
26 de abril de 2001