segunda-feira, 14 de outubro de 2013

ENEM 2012- Filosofia


Disponível em: http://umfilosofonaweb.blogspot.com.br/2012/11/enem-2012-filosofia-comentada-e.html
Questões de Filosofia do ENEM 2012, Resposta e Comentário.
Questão 1: É verdade que nas democracias o povo parece fazer o que quer; mas a liberdade politica não consiste nisso. Deve-se ter sempre presente em mente o que é independência e o que é liberdade. A liberdade é o direito de fazer tudo o que as leis permitem; se um cidadão pudesse fazer tudo o que elas proíbem  não teria mais liberdade, porque os outros também teriam tal poder.
MONTESQUIEU. Do Espirito das Leis. São Paulo: Editora Nova Cultura, 1997 (adaptado).

A) ao status de cidadania que o individuo adquire ao tomar as decisões por si mesmo.
B) ao condicionamento da liberdade dos cidadãos à conformidades às leis.
C) à possibilidade de o cidadão participar no poder e, nesse caso, livre da submissão às leis.
D) ao livre-arbítrio do cidadão em relação àquilo que é proibido, desde que ciente das consequências.
E) ao direito do cidadão exercer sua vontade de acordo com seus valores pessoais.

Comentário: Montesquieu (1689-1755) foi um político, filósofo e escritor francês. Reconhecido pela sua Teoria da Separação dos Poderes, atualmente consagrada em muitas das modernas constituições internacionais, sobre tudo na Europa. Essa questão faz uma ligeira referencia as ideias do Iluminismo. É acerca da forma de como os cidadãos são condicionados conforme as leis do Estado pelo ideal de liberdade. Saiba mais: O Espírito das Leis.

Questão 2:

Na França, o rei Luís XVI teve sua imagem fabricada por um conjunto de estratégicas que visavam sedimentar uma determinada noção de soberania. Neste sentido, a charge apresentada demostra:

A) a humanidade do rei, pois retrata um homem comum, sem os adornos próprios à vestimenta real.
B) a unidade entre o publico e o privado, pois a figura do rei coma vestimenta real representa o publico e sem a vestimenta, o privado.
C) o vinculo entre monarquia e povo, pois leva ao conhecimento do publico a figura de um rei despretensioso e distante do poder politico.
D) o gosto estético refinado do rei, pois evidencia a elegância dos trajes reais em relação aos de outros membros da corte.
E) a importância da vestimenta para a constituição simbólica do rei, pois o corpo politico adornado esconde os defeitos do corpo pessoal.

Comentário: Não só é a resposta mais completa em relação aos elementos da charge como a vaga referencia ao Absolutismo na França do séc.XVIII lembra que os monarcas buscavam passar uma imagem de si mesmo não apenas de poder e riqueza, mas também de divindade utilizando de artifícios simbólicos.
Saiba mais: Luís XVI da França (1774-1791).

Questão 3: Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seus entendimentos sem a direção de outro individuo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade e se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem, Tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento. A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma tão grande parte dos homens, depois que a natureza de há muito os libertou de uma condição estranha, continuem, no entanto, de bom grado menores durante toda a vida.
KANT, I. Resposta à pergunta: O que é esclarecimento? Petrópolis: Vozes,1984 (adaptado).

Kant destaca no texto o conceito de Esclarecimento, fundamental para a compreensão do contexto filosófico da Modernidade. Esclarecimento, no sentido empregado por Kant, representa:

A) a reivindicação de autonomia da capacidade racional como expressão da maioridade.
B) o exercício da racionalidade como pressuposto menor diante das verdades eternas.
C) a imposição de verdades matemáticas, com caráter objetivo, de forma heterônoma.
D) a compreensão de verdade religiosas que libertam o homem da sua falta de entendimento.
E) a emancipação da subjetividade humana de ideologias produzidas pela própria razão.

Comentário: o conceito de Esclarecimento (em alemão Aufklärung) criado por Immanuel Kant (1724-1804) filósofo prussiano, geralmente considerado como o último grande filósofo dos princípios da Era Moderna; é um sinônimo do período Iluminista em sintonia com a Modernidade, que tinha como característica a super valorização da Razão e das Ciências.

Questão 4: Na regulação de matérias culturalmente delicadas, como, por exemplo, a linguagem oficial, currículos da educação pública, o status das Igrejas e das comunidades religiosas, as normas do direito penal (por exemplo, quanto ao aborto), mas também em assuntos menos chamativos, como, por exemplo, a posição da família e dos consórcios semelhantes ao matrimonio, a aceitação de normas de segurança ou a delimitação das esferas pública e privada - em tudo isso reflete-se amiúdes apenas o autoentendimento ético-politico de uma cultura majoritária, dominante por motivos históricos  Por causa de tais regras de uma comunidade republicana que garanta formalmente a igualdade de direitos para todos, pode eclodir um conflito movido pelas minorias desprezadas contra a cultura da maioria.
HABERMAS, J. A Inclusão do Outro: estudos de teoria politica. São Paulo. 2002.

A reivindicação dos direitos culturais das minorias, como exposto por Habermas, encontra amparo nas democracias contemporâneas, na medida em que se alcança:

A) a secessão, pela qual a minoria discriminada obter a igualdade de direitos na condição  de suas concentração espacial, num tipo de independência nacional.
B) a reunificação da sociedade que se encontra fragmentada em grupos de diferentes comunidades étnicas confissões religiosas e formas de vida, em torno da coesão de uma cultura politica nacional.
C) a coexistência das diferenças, considerando a possibilidade de o discurso de autoentendimento se submeterem ao debate público, cientes de que estarão vinculados à coerção do melhor argumento.
D) a autonomia dos indivíduos que, ao chegarem a vida adulta, tenham condições de se libertar das tradições de suas origens em nome da harmonia da politica nacional.
E) o desaparecimento de quaisquer limitações, tais como linguagem politica ou distintas convenções de comportamento, para compor a arena politica a ser compartilhada.

Comentário: Essa talvez seja a questão mais contextualizadas e avançada no que diz respeito a Filosofia no ENEM desse ano. O multiculturalismo e o valor do discurso no pensamento de Jürgen Habermas (1929) filósofo e sociólogo alemão membro da Escola de Frankfurt, que até o presente momento continua muito profícuo, publicando novos trabalhos a cada ano. Frequentemente participa de debates e atua em jornais, como cronista político; estão muito bem apresentados nessa questão.

Questão 5:
Texto I
Anaxímenes de Mileto disse que o ar é o elemento originário de tudo o que existe, existiu e existirá, e que outras coisas provem de suas descendências. Quando o ar se dilata, transforma-se em fogo, ao passo que os eventos são ar condensados. As nuvens formam-se a partir do ar pro filtragem e, ainda mais condensadas, transformam-se em água. A água, quando mais condensada transforma-se em terra, e quando condensada ao máximo, transforma-se em pedras.
BAURNET, J. A aurora da filosofia grega. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2006 (adaptado).
Texto II
Brasílio Magno, filósofo medieval, escreveu: "Deus, como criador de todas as coisas, esta no principio do mundo e dos tempos. Quão parcas de conteúdo se nos apresentam, em face desta concepção, as especulações contraditórias dos filósofos para os quais o mundo se origina, ou de algum dos quatro elementos, como ensinam os Jônios, ou dos átomos  como julga Demócrito. Na verdade, dão a impressão de quererem ancorar o mundo numa teia de aranha."
GILSON, E.; BOEHNER, P. Historia da Filosofia Cristã. São Paulo: Vozes, 1991 (adaptado).

Filósofos dos diversos tempos históricos desenvolveram teses para explicar a origem do universo, a partir de uma explicação racional. As teses de Anaxímenes  filósofo grego antigo, e de Brasílio, filosofo medieval, tem em comum na sua  fundamentação teorias que:

A) eram baseadas nas ciências da natureza.
B) refutavam as teorias de filósofos da religião.
C) tinham origem nos mitos das civilizações antigas.
D) postulavam um principio originário para o mundo.
E) defendiam que Deus é o principio de todas as coisas.

Comentário: Essa por sua vez me pareceu a mais fácil dentre as questões de Filosofia. A busca pelo arché foi uma das primeiras investigações trabalhadas pelo homem, até hoje ela continua.

Questão 6: 
Texto I
Experimentei algumas vezes que os sentidos eram enganosos, e é de prudência nunca se fiar inteiramente em quem já nos enganou uma vez.
DESCARTES, R. Meditações Metafisicas. São Paulo: Abril Cultura, 1979.
Texto II
Sempre que alimentarmos alguma suspeita de que uma ideia esteja sendo empregada sem nenhum significado, precisamos apenas indagar: de que impressão deriva esta suposta ideia? E se for impossível atribuir-lhe qualquer impressão sensorial, isso servirá para confirmar nossa suspeita.
HUME, D. Uma investigação sobre o entendimento. São Paulo, Unesp, 2004 (adaptado).

Nos textos, ambos os autores se posicionaram sobre a natureza do conhecimento humano. A comparação dos excertos permite assumir que Descartes e Hume.

A) defendem os sentidos como critério originário para considerar um conhecimento legitimo.
B) entendem que é desnecessário suspeitar do significado de uma ideia na reflexão filosófica e critica.
C) são legitimas representantes do criticismo quanto à gênese do conhecimento.
D) concordam que conhecimento humano é impossível em relação as ideias e aos sentidos.
E) atribuem diferentes lugares ao papel dos sentidos no processo de obtenção do conhecimento.

Comentário: Uma bem elaborada questão na área de epistemologia, com nível de dificuldade adequado e bem distinta sobre as posturas filosóficas de Descartes (racionalista) e Hume (ceticista).

Questão 7: Não ignoro a opinião antiga e muito difundida de que o que acontece no mundo é decidido por Deus e pelo acaso. Essa opinião é muito aceita em nossos dias, devido às grandes transformações ocorridas, e que ocorrem diariamente, as quais não escapam inteiramente o nosso livre-arbítrio, creio que se pode aceitar que a sorte decida metade dos nossos atos, mas [o livre-arbítrio] nos permite o controle sobre a outra metade.
MAQUIAVEL, N. O Príncipe, Brasília: EdUnB, 1979 (adaptado).

Em O Príncipe, Maquiavel refletiu sobre o exercício do poder em seu tempo. No trecho citado, o autor demonstra o vinculo entre o seu pensamento politico e humanismo renascentista ao:

A) valorizar a interferência divina nos acontecimentos definidos do seu tempo.
B) rejeitar a intervenção do acaso nos processos políticos.
C) afirmar a confiança na razão autonomia como fundamento da ação humana.
D) romper com a tradição que valoriza o passado como fonte de aprendizagem.
E) redefinir a ação politica com base na unidade entre fé e razão.

Comentário: Essa questão mostra claramente o desprendimento de Maquiavel com conceitos medievais de seu tempo. Ao contrario do que todos pensam, Maquiavel não era maquiavélico, o que ele fez o analisar filosoficamente o cotidiano politico de sua época.

Questão 8: Para Platão, o que havia de verdade em Parmênides era que o objeto de conhecimento é um objeto de razão e não de sensação, e era preciso estabelecer uma relação entre objeto racional e objeto sensível ou material que privilegiasse o primeiro em detrimento do segundo. Lenta, mas irresistivelmente, a Doutrina das Ideias formavam-se em sua mente.
ZINGANO, M. Platão e Aristóteles: o fascínio da filosofia. São Paulo: Odysseus, 2012 (adaptado).

O texto faz referencia à relação entre razão e sensação, um aspecto essencial da Doutrina das Ideias de Platão (427 a.C.-346 a.C). De acordo com o texto como Platão se situação de ante dessa relação?

A) Estabelecendo um abismo intransponível entre as duas.
B) Privilegiando os sentidos e subordinado o conhecimento a eles.
C) Atendo-se à posição de Parmênides de que razão e sensação são inseparáveis.
D) Afirmando que a razão é capaz de gerar conhecimento, mas a sensação não.
E) Rejeitando a posição de Parmênides de que a sensação é superior à razão.

Comentário: Essa questão assim como a de Descartes e Hume é uma questão clássica da filosofia, o embate entre sentidos e razão. Muito bem elaborada a questão, sem dificuldade extra para o candidato.

Gabarito: 1 B, 2 E, 3 A, 4 C, 5 D, 6 E, 7 C, 8 D.     

terça-feira, 8 de outubro de 2013

AFORISMO

(Pensamentos)

Por: Claudio Fernando Ramos, 07/10/2013. Cacau ":¬)



Diferenças só causam desavenças quando, por intermédio de ideologias fabricadas e viciadas, inutilmente esforçamo-nos por torna igual o diferente. Essa vida única é forjada na pluralidade. Filosofia de Boteco. Cacau ":¬)


sábado, 5 de outubro de 2013

REDENÇÃO


(CONTO)

Por: Claudio Fernando Ramos, Abril 2013. Cacau “:¬)

Autor: Claudio Fernando Ramos. Brasileiro, natural da capital do Rio de Janeiro. Radicalizado em Natal, capital do Rio Grande do Norte, depois de morar por mais de vinte anos em várias cidades da Região Nordeste. O autor é licenciado em filosofia pela UFRN e vem se especializando em educação superior na UNP - RN.

Trôpego, procurou alguma coisa em que pudesse segurar, o momento é semelhante ao que vivera na infância, quando por etapas, procurava em primeiro lugar a mãe, depois a avó e em seguida o pai, sempre que as coisas não iam bem com ele. Só que dessa vez era diferente, muito diferente. Não estavam mais ali. Um a um, foram partindo, estava só. Essa era uma verdade inexorável, não havia nada que pudesse fazer para mudar essa brutal realidade. Mas essa ainda não era a pior das verdades: desolado, constatou que havia crescido, mas que o mesmo não poderia ser dito sobre a sua maturidade. Ou seria sanidade? Não sabia ao certo. Em algum momento, do seu inseguro passado, havia errado o caminho. Espectros, próprios dos caminhos tortuosos, espreitavam seus passos. Tropeçou, sentia uma vertigem idêntica a que sentira quando andava de montanha-russa e de roda gigante, sempre tivera medo dessas formas de diversão. Alguma coisa subia do  seu estomago e chegava amargamente a sua garganta; um gosto nauseante inundou-lhe a boca, regurgitou. A cabeça pendia do pescoço. Falou para si mesmo:

 – Como é possível sentir a terra rodar? Ninguém pode perceber isso! Eu nunca percebi isso antes!

Seu professor de geografia, um homem de olhos claros, possuidor de um inconfundível sotaque do centro sul do país e um singular rabo de cavalo na nuca, sempre o intrigara com suas certezas espaciais; principalmente por que às convicções eram sempre acompanhadas do imaginário. Não lembrava quantas, mas desconfiava que eram no mínimo umas três linhas: câncer, equador, capricórnio...  

Confuso, deixou-se dominar por um longo e denso silêncio. Havia uma tensão no ar. Só o ritmo descompassado de seu corpo se fazia ouvir, tremia. Na tentativa de sobrepujar essa condição, enrijeceu a musculatura do corpo, nada mudou. É inútil! Tudo é inútil! Sua vida é inútil! Parecia enlouquecer. Respirou fundo, segurou em um poste próximo, a terra girava um pouco mais. Tentou dar o máximo de dignidade  àquele momento, coisa que não conseguira fazer a vida toda. Alguns passos incertos para frente, depois de ter ficado de pé, lhe permitiu chegar ao fim de seu tortuoso trajeto. Poderia agora, sem mais detença, por em prática o seu objetivo maior; há tempo que essa ideia o acompanhava, não era possível precisar quando especificamente. Balbuciou para si:

- Não é de todo improvável que esse seja o meu melhor momento e que essa seja a única coisa decente que faço em toda a minha frugal existência.  

Por uns breves minutos, que mais pareceram uma eternidade, contemplou aquilo que os profissionais da engenharia costumam chamar de obra de arte. Nada como uma apoteose para um gran finale; ou seria grand finale? Em um passado distante ouvira alguém afirmar que essa palavra não existia em idioma algum, mas que talvez fosse uma referência ao modo italiano de dizer: grande final. Porém isso, assim como outras coisas nessa vida, pouco importava agora.  Segurou na mureta da ponte, fez força e pôs o corpo sobre ela, olhou para baixo, era uma noite sem luar, por isso não era possível enxergar a água que lá embaixo passava. Um súbito deslocamento de ar fez esvoaçar parte de sua camisa, que desde que saíra de casa, encontrava em desalinho.  Indiferente a sua dor, um gato de rua ronronava de dentro de um terreno baldio próximo. Voltou a ventar, dessa vez era um vento mais forte e mais frio. Lembrou de que há algum tempo vinha afirmando que não tinha necessidade de nada nem de ninguém, não tinha tanta certeza agora. O vento, como um arauto do maligno, insistia. Achou estranho, era verão, nesse período quase não ventava, nem muito menos fazia frio.

- Seria um sinal? Questionou. Para logo em seguida sorrir com amargura e melancolia. Isso não seria possível,  sabia que estava só, há muito tempo era assim.

- Uma mensagem do além? Tornou a falar consigo. Mas logo abandonou essas ideias religiosas e inúteis. Havia algo a ser feito; havia tentado outras vezes, mas estava decidido a não protelar dessa vez.

- Para que tanta humilhação, tanta vergonha, tanta impotência? Gritou desvairadamente.

 – Não, nenhum ser humano precisa viver refém dessas coisas! Esbravejou uma segunda vez.  

Nessa noite, definitivamente, libertar-se-ia. Se libertar do que, não sabia ao certo, mas imaginava que fosse do mal, do medo, do fracasso, da solidão. Isso era bem mais do que o suficiente. O amargo e melancólico sorriso voltou ao seu semblante.

Balançou, ficou muito assustado, não com o que estava prestes a fazer, mas com uma risada que rasgou a fria noite próxima ao cais. Teria mesmo ouvido alguma coisa? Talvez não, desde que lera alguns filósofos decidira tornar-se racionalista.

– Sou mesmo um ridículo! Um louco! Como posso me assustar comigo mesmo? Não posso esquecer de minha formação racionalista. Voltou a sorrir, mas dessa vez não havia amargura nem melancolia, afinal de contas a sua condição de homem racional havia retomado o controle de tudo novamente... Começou a delirar.

Nesse momento começou a cantarolar uma música que nunca tinha ouvido. A mureta da ponte balançou, talvez tenha sido ele mesmo, ia perdendo o equilíbrio, mas recompôs-se.  Ao longo dos anos ansiara demais por esse momento, não seria de qualquer maneira que iria partir. Ele, e não o acaso ou uma fatalidade qualquer, seria o maestro e regente da circunstância. Essa glória lhe pertencia, era só dele, de mais ninguém.

Tentou pensar nas poucas coisas boas que fizeram para ele ou nas que ele tinha feito para alguém. Não logrou êxito. Sentiu-se mal por isso, mais um fracasso. Era bom nessas coisas. Tentou inverter a ordem, quantas coisas ruins haviam feito com ele desde a infância?  Nesse momento uma enxurrada de péssimas lembranças o abraçou e o puxou para baixo. Seu corpo tremia, mas resistia. Um calafrio percorria-lhe a alma: seria o medo da morte, ou o medo da vida? Não sabia a resposta, dessa vez, a confusão reinante o fragilizou sobre maneira, começou a chorar...

Em alta velocidade, como se estivesse fugindo do próprio inferno, um carro passou pela ponte. No seu interior estava um homem de meia idade. Olhando pelo retrovisor, o condutor do veículo procurava confirmar aquilo que achava que seus olhos haviam lhe mostrado. Freou bruscamente o automóvel, abriu a porta e correu para o centro da ponte, por onde acabara de passar. Sabia que era uma pessoa mesquinha, egoísta e covarde, mas ali estava sua chance, pagaria todas as suas dívidas com o criador, salvaria uma vida, impediria que um filho de Deus pusesse fim a sua vida. Correu o mais que pode, não podia perder tempo. Pensou na infância, sempre que ia tomar banho amarrava as pontas da toalha no pescoço, abria bem os braços e tentava voar. Voou muitas vezes, combateu o mal, fez o bem. Mas isso foi há muito tempo. Quem o conheceu naquela época nunca iria imaginar que quando adulto ele faria o que fez. Estava em liberdade provisória há pouco mais de um mês. Pagara todas as suas dívidas com os homens, mas agora eis a sua grande chance, sua definitiva remissão, iria também ficar quite com a divindade.

Estacou no centro da ponte, estava confuso, não havia mais ninguém na ponte, só ele.
Mas como isso é possível? Fora exatamente ali que ele viu aquele vulto humano. Teria o homem se jogado da ponte? Pensou, sem conseguir esconder seu desespero pessoal. 
O intervalo de tempo em que passou com o carro, deixou o volante e chegou até ali, teria sido tempo demais? Ele não poderia ter esperado um pouco mais? Em questão de segundos todos esses pensamentos lhe passaram pela mente. Aflito, correu para o para peito da ponte e olhou para baixo, nada. Só enxergava escuridão e ouvia o suave e distante barulho da água que escorria.

Naquele momento soube que havia perdido uma titânica batalha da vida contra a morte. Quem teria vencido? Sentou-se no meio fio e ficou olhando ao longe. Uma figura disforme sumia noite à dentro.

- Teria sido o ser que vim salvar ou um transeunte qualquer que buscava proteção do frio da madrugada? Indagou impotente.

Pensou em levantar e correr mais um pouco, tentar alcançar o vulto que acabara de sumir. Mas estava cansado, muito cansado, cansado demais... Cansado da vida! 
Jamais saberia a resposta. Sentiu ódio. Permaneceria culpado.

- Algum dia, em algum lugar haverá para mim salvação? Pensou em voz alta. O gato do terreno baldio que havia ficado em silêncio por um longo período, pulou o muro e pôs-se a caminha despreocupadamente pela fria madrugada.

Era madrugada de domingo, não demoraria muito e a alvorada iria começar sua batalha diária com a penumbra da noite. Pôs-se de pé, o quase salvador resolveu voltar para seu carro, era a única coisa a fazer nesse momento. Fez um esforço para olhar para frente, ergueu a cabeça, internamente acabara de tomar uma decisão: à noite iria procurar uma igreja! Cacau ":¬)