ZN-FILOSÓFICA

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A Borboleta Bateu Asas, Mas Não Voou


Por: Claudio Fernando Ramos
Vivo a mais de uma década nessa cidade, nunca presenciei  uma situação que pudesse servir de modelo, comparação, paradigma para o caos urbano que estamos vivendo. É certo que o prefeito anterior não foi grande coisa. É fato que no início de sua gestão ele mais parecia um títere nas mãos da antiga governadora. Também é verdade que o pouco, que se comparado com a atual gestão é muito, oferecido a população teve forte apoio financeiro do Governo Federal, principalmente obras na zona norte da cidade. Mas mesmo com tudo isso, a gestão atual parece querer quebrar todos os recordes de incompetência.
Nossas ruas mais parecem à superfície do nosso satélite natural, ou seja, a lua; nossos postos de saúde estão tão combalidos que qualquer dia seremos nós quem teremos de socorrê-los: faltam medicamentos, faltam profissionais, falta gestão; a qualidade de nossa merenda escolar tornou-se matéria de um tele jornal de alcance nacional (tomara tenham sido tão rápidos para melhorar a qualidade do que se serve, como foram para fazer propagada duvidosa), nossas praias urbanas dão até vergonha, principalmente em se tratando de uma cidade como essa, sabidamente turística (nesse particular estou cônscio da também responsabilidade do governo do Estado): barulho, sujeira, falta de higiene, falta de espaços para o banhista nas areias etc.
Se, por uma questão de planejamento orçamentário, pouco pode ser feito, por que razão muito foi prometido? Se, para conquistar votos, o povo foi procurado, por que razão somos agora esquecidos? Quem deveria aparecer na televisão é aquele (a) que governa e não um ator contratado junto a uma agência de propaganda, para que, de forma ufanística conscientizar a nação sobre os grandes feitos do executivo.  Ponho na ordem do absurdo essa famigerada lei, como várias outras, que permite ao poder executivo, gastar dinheiro público para fazer propaganda em horário nobre, com única finalidade de maquiar sua inoperância. Só é candidato se quiser. Se algo é feito em benefício do povo, três aspectos nunca deve ser esquecidos: recebe-se um significativo salário para isso (há ainda os que fazem nepotismo), tudo é feito com o dinheiro do povo (somos nós quem pagamos) e, o mais importante, não é favor. A rigor, ser político não é profissão; nunca tive um cargo público, mas nem por isso sou menos político do que muitos oligarcas dessa nação.
A forma como a política é feita em nosso Estado seria de rolar de rir, não fosse à tragédia que vivemos em todos os âmbitos da vida social. Mas confesso não saber quem é mais cômico, se eles que nos tentam convencer de suas importâncias, ou nós mesmos que pecamos por continuarmos crédulos de seus sofismas.
Em outro artigo, sobre o samba/pagode (Cariocas em (sem) Natal), citei o passado tenebroso (amigos da ditadura) de alguns atuais democratas desse Estado; hoje, esquecidos que somos, quase não lembramos aqueles anos de chumbo, eles se foram. Mas por aqui poucas coisas mudaram, a desejada democracia, que teve seu início a mais de 2.400 anos na Grécia Antiga, parece não ter chegado por essas paragens, nem o humanismo, nem o iluminismo (juntamente com os ideais da Revolução Francesa)... Compra-se voto absurdamente, famílias se revezam no poder (por isso a expressão: oligarcas), e o que é pior: os “donos do poder” são também, a revelia da isonomia (princípio da igualdade, característica peculiar de todo autêntico regime verdadeiramente democrático), os formadores de opinião, ou seja, controlam os meios de comunicação no Estado. Aí fica difícil, quem poderá nos socorrer? Chapolim Colorado?
Há um determinado Senador da República, que tem sempre cadeira cativa (correligionários e seu filho também, só que nesse caso este é deputado) em um dado canal de televisão (aparece quase sempre nos jornais locais), os adversários (oposição de um modo geral) não gozam, certamente das mesmas prerrogativas, a não ser se for para serem criticados. Mas a coisa não acaba aí, o atual governo e a atual prefeitura também fazem parte desse cortejo, que na perspectiva presente, apresenta-se de forma fúnebre para o povo (só veiculam o que lhes é pertinente). Esses mesmo que desconhecem oposição em nosso Estado, fazem acirradas críticas ao Governo Federal. Minha única esperança é a de que o que eles cobram por lá se faça acontecer aqui.
Heterossexualismo, família, doações, entrevistas (no próprio canal de Tv), religião... Tudo isso e muito mais foi utilizado para convencer e emocionar o eleitorado natalense na última eleição. Surtiu efeito. Pena que o mesmo não possa ser dito sobre os resultados.
Caso alguém diga que na condição de carioca não gozo de plenos direitos de reivindicação, rio-me; isso é o mesmo que dizer: uma vez que Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo são clubes da cidade do Rio de Janeiro, nenhum cidadão Potiguar pode torcer, sorrir, chorar, se realizar.
Cacau, Natal-RN 09/06/2011

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Umas Linhas (Crônica)

Por: Claudio Fernando Ramos
Terminada uma tarefa extenuante, subo ao quarto, que acaba de ser limpo. Munido de uma cerveja não muito gelada, já são cinco horas da tarde e o dia foi chuvoso, sinto um irresistível desejo de escrever, oscilo entre esse desejo e um outro, escrever é melhor, concluo. Mas tenho um problema, não sei sobre o quê devo discorrer. Minha namorada, que desde cedo empenha-se na limpeza dessa velha e enorme casa, acaba de dar um grito, ao verificar sobre o que se trata, constato, como sempre, que tudo não passa de falso alarme, uma lagartixa afasta-se indiferente ao seu temor psicológico (um pouco mais cedo uma aranha não teve essa mesma prerrogativa, ou seja, a de ironizar e sair andando, diante de tanto “terror” explicitado, tive que desempenhar o meu papel de super, matei a coitadinha).
O quarto estremece  de um jeito ritmado, o som que sai do aparelho, posto na sala, tem uma potência invejável. A voz melódica de um negro, esse tipo de voz só pode ser de um homem de cor, envolve e preenche todo o recinto, promovendo um espectro de nostalgia. Esse fato acaba por acirrar minha cede, sorvo um pouco mais de minha cerveja que, quase esquecida em um canto, esquentar rapidamente. Não faz muito tempo Sara esteve aqui, na companhia de outros amigos,  depois de alguns anos, não sei ao certo quantos, foi bom tê-la visto novamente, como sempre, um ser humano determinado. Lembro-me dela no auge de uma adolescência singular. Hoje, adulta, casada e vivendo na Itália, sinto a força inapelável do tempo, ela continua bela, talvez um pouco mais, mas nós não somos mais os mesmos, se bem que não possa precisar em quê, especificamente, estamos diferentes.
Magra está no banho, já faz um tempo, é certo que está dando a atenção devida ao cabelo, todas fazem isso, talvez seja por isso que os cabelos tenham um duplo caráter: angústia e prazer de toda e qualquer mulher.
Nessa imensa América Católica, hoje diz-se semana santa, penso que mais santa ontem do que hoje. Meu país, a exemplo de outras economias modernas e “fortes”, passa por um processo acelerado de transformação, agora somos assumidamente consumistas. O sagrado tem valor, depende do quanto se cobra e de quantos querem pagar. Deus santificou o sábado (metáfora de descanso); os cristãos antigos, o domingo (lembrança de uma nova vida); a igreja, a semana (prefiro não saber o porquê).
Ainda agonizo na expectativa de encontrar um tema... Sobre o que escrever? Vida, morte, amor, ódio, ser, não ser, ter, não ter... Quer saber? Eu já terminei. Tudo o que eu precisava era escrever, e passado algumas dúzias de minutos, concluo que mesmo sem ao menos possuir um tema específico, foi isso o que fiz. Espere aí, estou terminando por que de uma forma ou de outra escrevi, por que não consigo encontrar um tema específico ou por que minha cerveja acabou? Vai saber!  Cacau 21/04/2011