ZN-FILOSÓFICA

quinta-feira, 21 de junho de 2012




 
Rio + 20

(Do modismo ao necessário)


Por: Claudio Fernando Ramos, Natal-RN – Junho 2012.
 


      Ilustrações na parede do quarto de dormir (Foto de Claudio F. Ramos).     
 

Na parede do meu quarto, há duas décadas, mantenho uma pequena, mas significativa, lembrança, adquirida por ocasião de minha participação na ECO 92. Hoje, vinte anos depois, o Rio de Janeiro novamente torna-se palco de outro evento da mesma envergadura, a Rio+20. A partir desse distanciamento histórico, uma pergunta torna-se inevitável: o que de fato mudou?

Essa pergunta pode ser respondida de várias formas. Pode-se fazê-lo biologicamente, filosoficamente, sociologicamente, etc. Porém, preferimos uma abordagem cidadã, ou seja, uma abordagem a partir da ótica do cidadão comum. Esse cidadão médio que em sua luta diária pelo pão nosso de cada dia, tem pouco ou nenhum tempo para, como equivocadamente agem alguns, “brincar” de salvar o mundo. E, nessa perspectiva, lamentavelmente, temos muito pouco a comemorar.
Transporte público. Diferentemente do que se possa imaginar, não falaremos sobre as péssimas condições em que as pessoas são tratadas e  transportadas nos centros urbano desse imenso país; mesmo que isso seja digno de nota, é sobre o combustível utilizado pelas empresas de transporte que refletiremos. Para uma nação que ambiciona suprir outras nações com combustível renovável, na Suécia os ônibus são ecológicos e utilizam etanol brasileiro, por que o nosso transporte de massa ainda faz uso do diesel (comprovadamente cancerígeno) como combustível majoritário? Essa é aquela famosa pergunta retórica. A resposta é óbvia: substituir toda a frota nacional custa caríssimo. É verdade! Mas conhecemos outras coisas bem caras nesse país, e nem por isso ninguém as impedem, não é mesmo? Isso também é retórico.  
Saneamento básico, o nome já nos deixa em situação constrangedora, se é básico, por que a maioria de nossos municípios ainda não gozam desse mínimo? É famosa a expressão: obras que ninguém vê não dão votos. Seria essa famigerada frase a resposta para nossa pergunta?
Coleta seletiva do lixo. No ano de 1987 tive o privilégio de passar dois meses na capital paranaense, e lá, pela primeira e ultima vez, vi uma coleta seletiva de verdade em meu país. Vinte e cinco anos depois, mesmo tendo morado em mais de dez capitais nacionais, só vejo projetos capengas, que se comparados com o que vi em Curitiba, há quase três décadas, dão até vontade de rir; às vezes de chorar. A produção de lixo nas cidades brasileiras assemelha-se a um robusto, resistente e invicto atleta, portanto, não será com ações pífias que se vencerá esse desafio.
Uso racional da água. É lugar comum falar que as nossas praias, nossos rios, baias, lagos e lençóis freáticos estejam, na sua maioria, poluídos. Na ausência do saneamento básico, são vistos como destino final dos esgotos produzidos pela nação. Não polua! Não desperdice! Racionalize! A menos que as políticas públicas se façam sentir, todas essas questões tornar-se-ão questões inviáveis. Para que essas inegáveis necessidades modernas tornem-se exequíveis, faz-se mister que o Estado aproxime-se com boa educação e necessária estrutura; sem contudo, negligenciar a fiscalização, as devidas punições e os meritórios incentivos. E é exatamente esse último item o mais desprezado de todos. Não consigo ver com bons olhos o que fazem os órgãos, geralmente públicos, responsáveis pela distribuição de água potável nos Estados da Federação. Tenho direito a dez metros cúbicos de água mês, porém, por questão de economia, faço uso somente da metade, mas essa atitude não me oferece nenhum benefício financeiro; entretanto, se exceder os dez metros cúbicos franqueados, o valor a ser pago majora-se excessivamente, assemelhando-se a uma punição unilateral. Como sempre, é bem mais fácil punir só cidadão comum (vede a lei seca; quem é multado pelos buracos e má conservação das vias públicas?). “Se falo minha dor não passa, se calo minha aflição não cessa.” Esse autêntico dilema de Jó me faz questionar: gasto ou economizo?  Obedeço ou negligencio? Em terras brasilis, essa dúvida adquire a face de uma solitária questão de consciência. Não é de bons auspícios que seja assim.
Para saber, ver e sentir as agressões promovidas pelo homem ao meio-ambiente no Brasil e no mundo, não é necessário ser especialista em economia limpa, economia renovável, biodiversidade, efeito estufa, etc. Mesmo sem entender nada de meteorologia, vários sertanejos sabem quando vai ou não chover. Do mesmo modo, a ausência dessas faculdades não impede o cidadão comum de diagnosticar que a nossa nação deu apenas alguns míseros passos no sentido de tornar-se bem mais que a sede da Conferência Mundial da ONU para o Meio-Ambiente, pela segunda vez. Uma vida sustentável em um planeta saudável deixará de ser moda quando, no consciente coletivo, tornar-se necessidade.
Cacau “:¬)