ZN-FILOSÓFICA

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

JOAQUIM BARBOSA, A HORA E A VEZ DO ESPÍRITO HUMANO.



Por: Claudio Fernando Ramos   Natal-RN 11/10/2012 Cacau “:¬)

                                             Joaquim Barbosa na infância.

Disse certa vez um destacado cientista: “A natureza sempre encontra caminhos”.  Penso de forma análoga a mais ou menos nove anos. Nesse período de tempo tenho visto e ouvido sobre um homem, cuja natureza, o caráter e o espírito têm buscado encontrar caminhos, não o caminho da conveniência, dos arranjos, dos cambalachos.  Toda vez em que olho para esse homem tenho a certeza de que estou visualizando um de meus pares. Sinto-me a vontade ao referir-me ao destacado ministro dessa forma, não o faço por ser seu semelhante em ofício, na vida não cheguei tão longe assim, mas sim pela identificação étnica, pelas histórias de lutas dentro de um contexto social tacanho, mal intencionado e quase sempre vil.
 
 Na cidade de Paracatu, interior Mineiro, o ministro já gozava de uma relativa fama. Desde criança, Joaquim trabalhou com o pai, ora ajudando a fazer tijolo, ora entregando lenha num caminhão velho que a família adquiriu. Quando o velho caminhão do pai quebrou, em 1971, a família resolveu tentar a vida em Brasília. Na capital federal, Joaquim se formou em Direito, foi aprovado no concurso para oficial de chancelaria do Itamaraty e depois em outro para procurador da República. Fez doutorado na Sorbonne, em Paris, foi professor visitante na Universidade Colúmbia, em Nova York, e na Universidade da Califórnia.
Essa estreita trajetória, estreita no sentido de ser difícil e, portanto, para poucos, proporciona ao sujeito amplas condições de vida autônoma e autárquica, qualidades essas que parecem ter sido sempre meta de vida do ministro. Um antigo amigo de infância, hoje empresário, relata: “Na casa de adobe onde Joaquim Barbosa morava com os pais e mais sete irmãos não havia sofá, geladeira nem televisão. Só uma mesa com cadeiras. Mas com o Joaquim não tinha essa história de negro humilde e pobre, e ele não se subordinava aos ricos e brancos”.
 
Não fosse a citada autonomia e a tão difícil autarquia, o hoje conhecidíssimo ministro, nada poderia estar fazendo. Isso fica claro quando voltamos um pouco atrás, mais especificamente no ano de 2003. Nesse período Joaquim Barbosa estava em Los Angeles, quando recebeu uma ligação de Márcio Thomaz Bastos — então ministro da Justiça e hoje advogado de um dos réus do mensalão — informando-o de que seu nome estava sendo cotado para uma vaga no Supremo Tribunal. O presidente Lula queria indicar um juiz negro para o cargo — celebrado como o primeiro na história da corte. Joaquim era o nome certo. Não tinha inimigos no PT e tinha currículo. Dois meses depois da primeira sondagem, saiu a indicação de Joaquim Barbosa para o STF. O ato foi assinado pelo então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu. Como podemos ver, sem independência pouco ou nada ocorreria, pois não só o PT indicou, mas também ratificou a indicação do ministro e, como sabemos, são os políticos do PT que estão no banco dos réus.
 
Ambicionamos o melhor, mas não sabemos ao certo para quê e, por não saber, gastamos dinheiro, tempo e energia desvairadamente. Nada ou muito pouco é realizado no plano espiritual. Antigos filósofos falavam sobre coisas naturais e necessárias; também falavam de coisas naturais e desnecessárias; e por último falavam de coisas não naturais e desnecessárias. O nosso ministro, dá mostras de entender um pouco dessas coisas. O ministro Joaquim intercala um estilo de vida simples com hábitos sofisticados. Seu carro é um Honda Civic fabricado em 2004. É amante de música clássica, adora Zeca Pagodinho e prefere os ternos importados. Ele mora em um apartamento funcional, ou seja, pertencente ao Supremo, e, controlado, consegue economizar metade do que ganha (26.700 reais por mês).

                               Joaquim Barbosa e Edson Arantes do Nascimento (Pelé).

Ao falar de espiritualidade, não o faço na condição de homem de fé religiosa (isso eu também tenho), mas o faço referindo-me a fé na vida, fé nas pessoas, fé no progresso humano. Essa fé pode até não ter forças para conduzir-nos aos portões de um postulado céu, mas creio ser suficiente para nos tornar melhores, facultando isso também aos outros. Essa fé não tem doutrina específica, nem local, nem hora para ocorrer; no caso do nosso ministro, isso parece ter ocorrido ainda na infância. O menino tinha alguns hábitos considerados estranhos: lia tudo o que encontrava, escrevia no ar, cantava em outros idiomas e gostava de andar com o peito estufado, imitando gente importante. “Todos viam que o Joaquim seria alguém quando crescesse”, diz o tio José Barbosa, de 78 anos. “Choro muito de emoção quando ouço a voz dele no rádio, no julgamento desse povo aí”, ressalta. Que povo? O tio não sabe direito. “São esses políticos aí…”.
 
Ouço as pessoas falarem sobre Deus, seu Filho e o seu Espírito que é Santo, sobre isso sei muito pouco. Mas, mesmo com esse pouco me avento ao caminho da desconfiança. Não o faço como fazem os ateus, quando afirmam a inexistência da divindade, sou crente o suficiente para uma escolha tão radical como essa, mas a forma, o modelo, à intenção como a coisa é feita. Aceito a ideia do mal que há em cada um, mas nego-me a crer em sua derradeira vitória. Homens e mulheres como Joaquim Barbosa só fazem corroborar o que sinto. Sinto que a glória de ter criado e o amor de quem criou, de alguma forma tocam as coisas criadas e, ainda que não de forma absoluta, parte dessa glória e muito desse amor, possui força suficiente para nos concitar a olhar para dentro, para o lado, para cima e acreditar que ainda há esperança, essa esperança não está, não necessariamente, nesta ou naquela religião, mas nas brumas do Espírito Humano.
 
Não há uma natureza independente, nós somos natureza e, como constatou o cientista, há caminhos a serem descobertos. Desconfio que isso ocorrerá, principalmente, em meio as crises e dificuldades engendradas pelo mal, que também se faz presente. Porém, o homem é possuidor de um espírito e é esse mesmo espírito que não permitiu, nem permitirá, que o mal se torne invencível. Cacau “:¬)  

Esse texto contém  trechos da reportagem feita pela revista Veja.
http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/tag/joaquim-barbosa/