ZN-FILOSÓFICA

domingo, 20 de abril de 2014

FELIZ PÁSCOA? SÓ SE FOI A SUA!

Por: Claudio Fernando Ramos, 20/04/2014. Cacau “:¬)

 “Porque cantar samba é também uma forma de fazer oração.” (Candeia)
Ser crente nessa proposição, proferida pelo mestre Candeia, deveria ser compulsório, nunca algo opcional. E além de cantar, o grande mestre deveria ter incluído o compor e o ouvir músicas, sem que essas prerrogativas se restringissem ao samba. Mais uma vez iremos municiar os nossos detratores. Daremos aos nossos adversários (que são muitos e dissimulados) mais uma razão para discordarem de nossas concepções musicais. Sem problema! É isso mesmo o que esperamos, queremos e gostamos: uma sociedade mais afeita ao pensamento racional, ao debate, à reflexão;  portanto, menos dogmática, pragmática e corporativa.

Nessa páscoa (abril 2014), por uma questão de logística, quase não saímos de casa, até aí tudo bem, descansar também é lazer! Mas, para o nosso infortúnio, alguns de nossos vizinhos também fizeram o mesmo, ou seja, ficaram em casa; só que em nada demonstraram que o descanso fosse meta principal.
Durante três, dos cinco dias, período em que está durando esse mal fadado feriado estendido, tivemos que suportar uma das piores desgraças da vida em sociedade: o péssimo gosto alheio.

Há um famigerado ditado brasileiro que afirma: gosto não se discute. Discordamos veementemente! Desde o surgimento da filosofia antropológica dos Sofistas, filósofos gregos que defendiam a relatividade da verdade, o homem passou a questionar tudo e a todos, inclusive a si mesmo. Menos o brasileiro! Este, ainda não aprendeu como deixar de ser teleguiado, cada vez mais midiático, dificilmente deixará de dança conforme a música!

“Briga de marido e mulher, ninguém mete a colher.”
“Se eu quiser beber eu bebo, se eu quiser fumar eu fumo...”
A justiça, consequência das deliberações humanas, discorda de tudo isso e muito mais. A lei Maria da Penha, a Lei Seca, a proibição do tabagismo em espaços públicos, a repressão ao tráfico, comércio e consumo de entorpecentes  aí estão, não só para intrometer-se, mas também para punir, se necessário for, os envolvidos.

É certo que vivemos em um Estado de Direito, nessa condição, defendemos conceitos como liberdade, livre-arbítrio, autonomia, volição, etc., como conquistas inalienáveis. O problema é que no convívio social nada é propriamente independente e isolado, ou seja, as escolhas, motivadas por gostos pessoais, quase sempre resvalam em direitos e conquistas coletivas. É só lembrar quando os celulares passaram a tocar música sem o necessário uso dos fones de ouvido. Andar de ônibus, que nunca foi algo prazeroso, passou a ter um sofrimento a mais em nosso país.

Nossos vizinhos, quatro deles, parecem ignorar tudo aquilo que é básico no âmbito da vida social. Além de fazerem “escolhas” que duvido muito que possam ser classificadas como de bom gosto, não as deixam restritas ao escopo do privado (música extremamente alta no banco traseiro e porta malas de automóveis). Nosso feriado, sem que ninguém perguntasse ou até mesmo se importasse com o nosso gosto, foi repleto de “músicas” da Banda Grafite, Cavalheiros do Forró, Aviões, Mc não sei do quê, axé, brega, sertanejo universitário e coisas que o valham.

Mesmo mantendo uma postura crítica quanto ao quê, o porquê, o como e o quando; defendemos a liberdade, a igualdade e a fraternidade, marcos da Revolução Francesa, nas ações humanas. Tudo isso na esperança de que o gosto ou mau gosto alheio, não tenha que ser compartilhado compulsoriamente por todos. Gostos e desgostos; feriados santos, festas e comemorações; isso o Brasil tem demais. O que parece andar em falta por aqui é o bendito do Bom Senso.