ZN-FILOSÓFICA

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O barraco de Papai Noel

Por: Claudio Fernando Ramos, Natal-RN 12/01/2012

A casa de Papai Noel, melancólico espaço aberto a visitação pública.
O termo barraco, utilizado nesse texto, não tem, nem de longe, qualquer relação com os escândalos e vexames que nós, uns mais outros menos, costumamos proporcionar aos outros cotidianamente. A literalidade do termo, ou seja, a ausência de conotações na utilização da palavra deve ser levada em consideração.
Faço parte daquele pequeno grupo de cidadãos que acredita que as festas natalinas deveriam ter, principalmente por uma questão nominal, uma maior envergadura e um maior fôlego, nesta singular capital. Mas isso, como todos já devem ter percebido, ainda está muito longe de acontecer. Essa minha proposição, mas que bem poderia ser de qualquer pessoa com um mínimo de bom senso, é facilmente notada pelos transeuntes ao cruzarem as estreitas avenidas e ruas de nosso município. Em alguns pontos da cidade a decoração chega quase às vésperas do natal. Por que não tomar a iniciativa privada como exemplo? É bem verdade que eles exageram um pouco – no fim de outubro já há shoppings decorados na cidade – porém, se outubro é cedo demais, meados de dezembro é muito em cima.




Árvore de natal da cidade do Natal, a gigante noturna.
Foi nas imediações  do nosso maior troféu, uma das mais altas árvores de natal do Brasil, que umas reflexões retóricas me vieram a mente: por que nossa árvore só tem importância ao anoitecer? A resposta a esse questionamento é um tanto quanto óbvia (por isso é retórica). Nossa árvore é constituída somente de micro lâmpadas. Por que não temos uma árvore para ser admirada tanto durante o dia, como durante a noite? Apesar de saber a resposta, pelo mesmo motivo da primeira, prefiro fazer silêncio. O fato de sermos constantemente insultados pela incompetência dos que nos governam, não deve servir de álibi  para fazermos o mesmo com eles.
 Desconfio que se Papai Noel é tão real quanto às crianças imaginam que ele seja, nossa cidade tem um grande problema para resolver. O local onde bom velhinho tão solicitamente atende as crianças, os poucos seres que ainda se deixam alcançar pelo verdadeiro espírito de natal, é um verdadeiro barraco. Uma parte do estabelecimento caiu aos pés de uma visitante que, na tentativa de obter um ângulo melhor para sua foto, inadvertidamente tentou apoiar-se em uma das paredes do casebre. No seu interior, uma solitária mobília faz eco ao melancólico quadro de desmoronamento. Disposta em um dos cantos, uma poltrona terminal agoniza. Essa poltrona passa-nos duas certezas: primeiro - Papais Noeis a utilizaram por anos a fio; segundo - a poltrona nunca foi removida para qualquer tipo de manutenção. A poltrona de Noel me fez lembrar as famosas e temidas cadeiras da justiça americana, se nas deles perde-se a vida, na nossa, desconfio que se vive momentos de intensos tormentos. Não deve ser pouca a quantidade de poeira, ácaros, percevejos, pulgas e similares ali contidos.

Cabisbaixo na partida, Noel não dá certeza alguma de futuros retornos.
Se nada for feito: o turismo seguirá comprometido (geração de emprego e arrecadação de impostos – sempre são boas motivações para governos letárgicos); crianças esperançosas e adultos sonhadores verão diluídas suas expectativas (perda de votos – depois do poder é o que os políticos mais evitam perder); e as tradições e crenças populares serão subjugadas por um inexorável niilismo (religião – é o que os políticos mais temem depois da mídia). A manutenção desse quadro nos faz pensar em um Papai Noel cabisbaixo na partida, com olhar repleto de incerteza quanto ao seu retorno para Natal no natal do próximo ano.   Cacau :¬)