ZN-FILOSÓFICA

domingo, 2 de março de 2014

NICOLAU MAQUIAVEL: OXALÁ ELE TAMBÉM GOSTE DE CARNAVAL E FUTEBOL



Por: Claudio Fernando Ramos, 01/03/2014. Cacau “:¬)


Nós, na condição de nação, infelizmente, estamos bem adaptados a determinados costumes e práticas, quem bem poderiam ser chamados de “jabuticaba1”, ou seja, só acontecem no Brasil. Podemos citar dois deles: o primeiro é divertido, prazeroso e lesivo, ocorre em fevereiro, às vezes em março, o carnaval; o segundo é arrebatador, apaixonante e alienante, ocorre basicamente o ano todo, o futebol. A lesão e a alienação que nos referimos não são as das festas em si, nós, que por hora discorremos sobre esses fatos, até que gostamos dos mesmos. Nem queremos fazer crer que a expressão “jabuticaba” citada um pouco mais acima, pretende afirmar que o carnaval e o futebol só ocorrem por essas paragens. Nada disso! Desejamos refletir (sem a obrigação de responder e concluir) sobre as razões que nos levam a constatar e criticar; porém, aceitar de bom grado o fato de que, em nosso país, as coisas só têm início após o carnaval; e mais, por que a pátria amada só é considerada adequadamente vestida, depois de devidamente calçar as chuteiras? Isso ninguém toma, é nosso! É a nossa adorável “jabuticaba”. O nosso orgulho!
 
Nesse ano, além do carnaval, temos mais dois grandes momentos: a Copa FIFA e as eleições nas esferas federal e estadual. Todas três, certamente, têm sua importância e apelo nacional; mas, cá pra nós: qual delas é vital? Se você escolheu a última, acertou. Todavia, não é assim que o grosso da população pensa; se pensam, não levam em consideração. O carnaval, sem levarmos em conta suas virtudes e vicissitudes, juntamente com o futebol, constitui uma verdadeira paixão nacional. O mesmo já não ocorre com a política, mesmo com as esporádicas comoções que desperta, ela perde de longe para as duas outras concentrações nacionais. E é isso que nos faz pensar: por que o mais importante é o menos relevante?
Nós, que por hora manifestamos nossa opinião, em forma de artigo, não compartilhamos das utopias de Estado que em dados momentos lemos, ouvimos e vemos; somos maquiavélicos por formação e escolha. Para nós, toda relação é política, e, por trás disso, há sempre um amálgama de força e de poder.

Nicolau Maquiavel (1469-1527), mal compreendido em sua época, sempre esteve presente nas ações políticas dos homens, mesmo nas daqueles que não possuíam sequer consciência de sua existência, como nas daqueles que possuíam, e, por conta disso, insistiram em descredenciá-lo. Mais uma vez precisamos do realismo político do italiano renascentista, para que depois das “festas”, do prazer e da paixão (carnaval e futebol), tenhamos o discernimento necessário para distinguir a diferença entre o como se vive e o modo por que se deveria viver. Porque, na perspectiva do autor de “O Príncipe”, todo aquele que se preocupa com o que se deveria fazer em vez do que se faz aprende antes a ruína própria.


O fracasso do político no pleno exercício de sua função (gestão pública), assim como o fracasso do cidadão no pleno exercício de sua liberdade (suas escolhas) é, inexoravelmente, o fracasso de uma nação.


Em 2014, a letargia comum de janeiro, fevereiro e parte de março, por conta do carnaval, tende a contaminar abril, maio, junho e parte de julho. Acordar desse marasmo o quanto antes pode ser o ponto de equilíbrio para um ano que já nasceu sobre a égide da derrota; pouco importando qual será a escola ou a seleção que erguerá o troféu.


Se ao menos Maquiavel soubesse sambar ou marcar gols, nosso futuro estaria bem menos comprometido, porque mesmo fazendo distinção entre a moral privada e a moral pública, ele tinha em mente a consequência das ações, ou seja, os seus resultados, e estes deveriam, em última análise, ter como principal objetivo a busca do bem comum. Nós acreditamos que esse bem não se restringe àquele que se esvaia anualmente nas quartas de cinzas; nem, muito menos, àquele que de forma itinerante só ocorre a cada quadriênio. Acreditamos que seja um projeto de nação, que pode até comportar inúmeras festas, mas que não se equaciona apenas com fantasias, entretenimentos e diversões. Acreditamos que seja um projeto de nação em que os utópicos fundamentos sejam deixados de lado, mas sem esquecer que o mesmo critério deve ser diligentemente aplicado por aqueles que insistem em tratar as coisas públicas de acordo com as conveniências, conchavos e casuísmos do momento.

Para que o bem comum, postulado pelo italiano, nos alcance, com ou sem fantasias, devemos lutar por um carnaval sem quartas de arrependimentos; e mesmo sem condições de ganhar tudo de todos, devemos anelar por um time de vencedores. Mudar apenas o carnavalesco de uma agremiação, do mesmo modo como se muda apenas o treinador de uma equipe, não constitui garantia suficiente para que se obtenham a vitória desejada.


Transformar: um país de pessoas que falam, em pessoas que fazem; um país de pessoas alegres, em pessoas felizes; um país de pessoas acolhedoras, em pessoas de paz; um país de pessoas que sonham, em pessoas que realizam; constitui o maior dos desafios, a mais gloriosa das lutas, a mais digna das batalhas!


Parece difícil para você? Vencer dos melhores do mundo cinco Copas FIFA também foi!


Parece um sonho para você? Veja a esplendorosa quimera apoteótica que se concretiza a cada carnaval!


Por que pensar que só na política nada é exequível? Cacau “:¬)

  
1 A  jabuticaba,  fruta brasileira por excelência, é uma baga redonda ou arredondada, em regra roxo - escura, com polpa esbranquiçada doce, saborosíssima, envolvendo 1 a 4 sementes. Também há jabuticabas "listradas de roxo ou vermelho, quase negro, com listras roxas ou vermelhas ".